A Nudez de Dorothy

Conto Brasileiro

A NUDEZ DE DOROTHY DAISY

 (Premiação Nacional 1º Lugar - Categoria Contos - 5º Prêmio Nacional de Contos de Ipatinga - 2014)


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"Houve um dia em que o nu artístico e a natureza morta se complementaram."


Esbarraram-se na saída da Estação do Mercado... E foi para sempre.


Dorothy é cinematográfica... Estátua de rua nas horas cheias. Atriz mambembe nas noites de folga... ainda sem agentes, poucos amantes e sem papéis significativos nas noites lotadas do Theatro São Pedro. Balzaca teen. Garota desenhada por Charles Gibson; um cheesecake[i] dos anos vinte. Theda Bara como Cleópatra, em 1917. Perfeita... muito mais do que aquilo que um artista ousaria sonhar.


Ele, Samuel, é um ninguém... Bicho grilo. Homem planta. O último hippie. O primeiro a vender vales transporte durante a semana nas imediações da Praça da Alfândega.


Em noites de insônia, Samuel incorpora um autêntico pintor de naturezas mortas, que apresenta suas telas, aos domingos, na efervescência do Bric da Redenção e até consegue algum troco para os vícios.


Dorothy Daisy seria nome artístico, mas o seu verdadeiro nome, aquele que estaria registrado na Certidão de Nascimento ou na carteira de identidade, nem ela lembra, afinal, para quem foi deixada para trás, sozinha e abandonada, aos nove anos por um casal de artistas de rua às margens da Free-Way em Gravataí, ela poderia ser considerada uma sobrevivente e isso já é o bastante para Samuel, não importando as formalidades civis de uma vida convencional. Aliás, se fossem pesar os antecedentes, Samuel é daqueles tipos que não possuem currículo, mas, sim, uma extensa ficha corrida.


Os primeiros dias, após o esbarrão na saída da estação, foram dedicados a uma espécie de lua de mel no estúdio de Samuel, regada a vodca no bico e defumações com incensos de maconha. Vinte e quatro horas por dia, durante quase uma semana, de sexo selvagem, "baratos" alucinógenos e Rock and Roll da pesada em discos de vinil.


Passada a paixão fulminante inicial, Samuel retoma os seus trampos no centro e Dorothy vai à luta como estátua.


À noite, os dois se reencontram, devoram-se vivos e, depois, a exausta Dorothy adormece, enquanto Samuel se dedica às pinceladas sobre tela. - "Natureza morta é o meu esquema, manja?", costuma dizer.


Na visão de Samuel, Dorothy tem pés e mãos que visitam a perfeição, sem falar em sua face.


Diversas vezes ele tenta esboçar a silhueta e os detalhes de sua musa, porém, não consegue. Tenta e erra. Tenta e erra. Tenta e não atinge o resultado desejado.


O dinheiro é escasso e ele não pode se dar ao luxo de esbanjar grafite e lápis. Além disso, conseguir frutas frescas e objetos indispensáveis para a composição dos cenários de seus quadros de natureza morta está cada vez mais complicado. Samuel eventualmente consegue angariar maçãs, uvas e bananas levemente deterioradas em vias de descarte na CEASA, mas não é sempre que se dispõe de tempo e ânimo para ir e voltar ao Bairro Anchieta, tentar a sorte com feirantes atentos, ou disputar a xepa com catadores miseráveis.


Por estas e outras, com a chegada de Dorothy Daisy, Samuel acha oportuno tentar se aventurar em um novo estilo, o nu artístico e os retratos, porém, não tem muitos conhecimentos de anatomia e depende de modelo real para a execução de seus traços. Por outro lado, Dorothy, talvez por passar o dia imóvel, batalhando legal e posando para os transeuntes nas imediações do Paço Municipal, tem um sono inquieto, agitado, ou seja, ela não para em uma posição de fácil observação por tempo suficiente para a necessidade de Samuel. Aquilo atrapalha e "avacalha" as tentativas de retratar as partes perfeitas do corpo da modelo. O artista se sente muito incomodado e, por vezes, costuma gritar com a Dorothy para que não se mova, o que resulta, em discussões e bate bocas constantes, quase se chegando às vias de fato.


Naquele dia, Dorothy Daisy chega em casa radiante e diz que um tal Ivo Bender a teria convidado, naquela tarde, a fazer um teste no grupo de atores de sua remontagem da peça "O Cabaré de Maria Elefante", como uma das freiras. Samuel se transforma e fica colérico, acusando-a de usar o seu poder de sedução para atrair homens, sugerindo com sarcasmo, inclusive, que ela transfira o seu ponto no Paço Municipal para as esquinas da Voluntários da Pátria[ii].

Dorothy se sente muito ofendida e procura sair porta a fora dizendo que está indo embora. - Adeus! - Diz, em tom grave e voz trêmula.


Samuel tenta impedi-la, mas ela empurra-o e prossegue no seu intento de sair de casa. Samuel cai, mas levanta-se, segura Dorothy pelo pescoço e a derruba... ele aperta mais e mais o pescoço a ponto de sentir as artérias pulsando. Muito mais fraca fisicamente, ela não consegue se desvencilhar ou repelir seu agressor. Ele aumenta mais ainda a pressão dos dedos e sente o estalar de ossos. Dorothy Daisy debate-se até que desiste de lutar e encontra o seu fim naquele momento extremo.

Desvairado, Samuel solta o pescoço e se joga para trás, ficando durante horas a contemplar a cena do crime que acaba de se consumar.


Ele levanta, caminha até a cozinha, apanha uma serra fita de carpinteiro e uma faca de açougue e volta para o local onde se encontra o (belo) cadáver de Dorothy Daisy.


UM MÊS DEPOIS NO BRIQUE DA REDENÇÃO[iii]


No meio da manhã, um marchand com sotaque francês aborda Samuel, entrega-lhe um cartão de contato, convidando-o a expor seus quadros num atelier "lá de fora". O pintor ambulante fica muito interessado, enquanto o perito em obras de arte elogia aquela nova coleção em acrílico sobre tela. São seis quadros com atmosfera lúgubre, o principal, medindo 100 x 90 cm, retrata uma bela mulher nua, deitada em uma cama próxima à janela aberta, de olhos abertos, estalados, como quem contempla o céu noturno repleto de estrelas; é o quadro número um e se intitula "A Última Lua Nova". Os demais são quadros complementares da coleção e medem 40 x 60 cm. Seguindo a mesma linguagem, porém, retratando partes amputadas que seriam da mesma mulher retratada no quadro principal, dois pés posicionados ao lado da cama, como se fossem sapatos; duas mãos, seccionadas na altura dos punhos, espalmadas na pia do banheiro descansam sob um fluxo de água da torneira; uma cabeça decepada sobre a mesa de uma cozinha; um par de mamas expostas em um tórax desnudo, sem braços, como a Vênus de Milo, sobre um guarda roupas; duas lindas pernas cruzadas em uma cadeira, como se a mulher, realmente estivesse ali sentada, contudo, sem os pés e sem o restante do corpo...


Analisa o marchand:


- Esta coleção é muito peculiar e transmite um grau elevado de dramaticidade mesclada à beleza física inegável de um corpo feminino, mesmo que retratado em frações amputadas, anatômicas. Realmente é um conjunto de quadros que exprimem o seu grande talento e criatividade, transbordante de valor estético. Impactante. E a sua técnica não é má!


Samuel diz que pensará na possibilidade de apresentar sua obra no exterior. E complementa como se fosse ficção:


- A modelo... eu precisei assassiná-la com minha espátula de apagar sonhos. Ela se chamava Dorothy. Morreu ali, eternamente imóvel na tela; para sempre estendida naquela cama deste meu primeiro e, talvez único, quadro perfeito.


Naquele domingo e nos domingos subsequentes, ninguém comprou a coleção, porque "todos menos aqueles" estavam à venda.


FIM


[i] Expressão “cheesecake” é sinônimo de “foto pinup”. O mais antigo uso documentado neste sentido é de 1934, antecipando-se a “pinup”.

[ii] Rua de Porto Alegre (RS) que se caracteriza por ser uma via onde se localiza o comércio popular da cidade, porém, ainda hoje, há muitos focos de prostituição, inclusive à luz do dia.

[iii] O Brique da Redenção é como é chamado pela população de Porto Alegre (RS) o espaço cultural que compreende a tradicional feira de artesanato no bairro do Bom Fim. É considerado, desde meados dos anos 80, como um dos principais pontos turísticos da capital. Inicialmente chamado de Mercado das Pulgas, iniciou suas atividades em março de 1978.

 


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ISBN: Prefixo: 85-919431 - (Faixa Editorial 6)


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